Dupla via de saída do ventrículo direito em 3D: o túnel cabe, mas caber não basta

Dupla via de saída do ventrículo direito em 3D: o túnel cabe, mas caber não basta

Na dupla via de saída do ventrículo direito, a aorta e a pulmonar saem do VD, e o sangue do VE só tem uma porta: a CIV. Num coração real de ressonância, um tubo de 13 mm cabe da CIV até a aorta, com 30 mm e nenhum voxel dentro da pulmonar. A CIV, porém, está a 6,3 mm da pulmonar e a 11,9 mm da aorta. A imagem responde à pergunta “dois ventrículos ou um?”. O caminho fica para o time.

Dr. Mbula Luzingu Barros | MÉDICO · CRM-SC 8512 | Pediatria RQE 3054 · Medicina Intensiva Pediátrica RQE 8412 | 25 anos de UTI Pediátrica | Fundador da INOVAMED | Criador da Metodologia AIMED

📅 Novembro de 2026

1. A pergunta da reunião

A cena é ilustrativa, a anatomia é real. Um lactente com dupla via de saída do ventrículo direito já passou pela bandagem da artéria pulmonar, que segura o fluxo para o pulmão e compra tempo. Na reunião clínica de amanhã, alguém vai fazer a pergunta que decide a vida inteira dele: dois ventrículos ou um?

Dois ventrículos significam fechar a CIV de modo que o VE ejete na aorta. Um ventrículo significa o caminho de Glenn e Fontan, sem bomba para o pulmão. A resposta depende de geometria: onde a CIV abre, a que distância das valvas, e se há espaço dentro do VD para levar o sangue do VE até a saída certa.

Fui medir isso num coração real.

2. Assista: Sem Saída

Cerca de 100 segundos, uma voz só. No meio do filme há uma pausa para você votar nos comentários antes de ver a resposta. Depois a câmera entra no ventrículo direito e um tubo cresce da CIV até a aorta, com o contador da pulmonar parado em zero.

3. Passeio 3D em nove passos

Os dois corações reais lado a lado, na mesma escala: um normal, de 17 anos, e o lactente com dupla via de saída do ventrículo direito. Cada passo acende só o que importa: quem sai de cada ventrículo, a CIV, as artérias lado a lado, o tubo de 13 mm e a outra rota. A bússola mostra sempre o lado do paciente, e o último passo é um autoteste.

Cinematic Education · Explore em 3D

Dois ventrículos ou um? Decida em nove passos.

Cada passo acende só o que importa nos dois corações reais, lado a lado e na mesma escala. O tubo verde é um cálculo, não anatomia. Depois gire, amplie e faça o teste.

NORMAL17 anos
DVSVDlactente · pós-bandagem

O modelo só é baixado quando você abre.

4. O que é a dupla via de saída do ventrículo direito

Na dupla via de saída do ventrículo direito (DVSVD, ou DORV em inglês), as duas grandes artérias saem inteira ou predominantemente do VD. A nomenclatura internacional de cirurgia congênita pede que cada caso seja descrito por seis itens: a relação da CIV com as valvas semilunares, a relação das grandes artérias entre si, a anatomia coronária, a obstrução das vias de saída, a distância entre a tricúspide e a pulmonar e as lesões associadas [1]. A descontinuidade mitro-arterial e o cone bilateral ajudam, mas não são pré-requisito do diagnóstico [1].

O ponto central é a CIV. Ela é a única saída do VE. Conforme a posição dela, a DVSVD se comporta como uma CIV grande, como uma tetralogia, como uma transposição ou como algo que não se encaixa em nenhuma dessas formas.

Como ler direita e esquerda neste artigo

VD e VE são nomes pela morfologia da câmara. Quando o texto fala de lado, é sempre o lado do paciente. Nas imagens de frente, a direita do paciente aparece à esquerda da imagem, como numa radiografia.

Dupla via de saída do ventrículo direito em 3D: aorta e pulmonar saindo do VD, CIV em branco entre VE e VD, coração real do HVSMR-2.0

5. O coração real, em números

O caso é o pat48 da base aberta HVSMR-2.0: 60 ressonâncias de cardiopatias congênitas com as câmaras e os vasos segmentados à mão pelos autores [2]. Entre os 22 casos marcados como DVSVD, escolhi este por ter dois ventrículos de tamanho parecido, nenhum artefato de imagem e a paliação ainda antes da decisão. Os planos valvares são as superfícies em que o sangue de uma câmara encosta no da outra, numa grade de 0,7 mm.

Medida Valor Leitura
Conexões atrioventriculares AE→VE e AD→VD; zero contato cruzado concordantes
Aorta e pulmonar junto ao VE 0 voxel as duas saem do VD
Posição das grandes artérias aorta 19 mm à direita da pulmonar lado a lado
VE / VD (volume do molde) 0,92 ventrículos equilibrados
Mitral / tricúspide (área) 0,91 valvas de entrada equilibradas
Raiz aórtica junto à valva 13,0 mm medida da RM; não é o anel do eco
Tronco da pulmonar 12,1 → 5,9 mm estreitamento focal da bandagem
CIV → valva aórtica (borda a borda) 11,9 mm 0,9 vez a raiz aórtica
CIV → valva pulmonar (borda a borda) 6,3 mm a CIV está mais perto da pulmonar
Tricúspide → valva pulmonar 19,9 mm item exigido pela nomenclatura [1]
Mitral → valvas aórtica / pulmonar 15,0 / 12,0 mm sem continuidade mitro-arterial

Os volumes são do molde de sangue e não foram indexados pela superfície corporal, que a base não traz. Por isso o artigo usa razões entre os dois lados, sem Z-score.

Réguas borda a borda: CIV a 11,9 mm da valva aórtica e a 6,3 mm da valva pulmonar no coração real com dupla via de saída do ventrículo direito

6. Por que esta CIV não é “remota”

Comecei procurando uma CIV remota, a forma mais difícil da DVSVD. Lacour-Gayet define a CIV não relacionada por três critérios: ela fica a mais de um diâmetro aórtico das duas valvas arteriais, as duas artérias saem inteiras do VD e há cone duplo [3].

Na primeira triagem medi do centro da CIV ao centro da valva aórtica e obtive 24,6 mm, quase duas vezes a raiz. Pareceu remota. O critério, porém, mede de borda a borda. Refeita assim, a distância caiu para 11,9 mm, e a CIV ficou a 6,3 mm da pulmonar. Pelo critério correto, esta CIV não é remota: está relacionada à pulmonar.

O que muda

As artérias lado a lado, com a aorta à direita, e a CIV perto da pulmonar formam o padrão do espectro tipo transposição. Não chamo o caso de Taussig-Bing, porque esse rótulo exige ver o cone, e o músculo não está segmentado. O nome que dá para defender é este: DVSVD com conexão AV concordante, artérias lado a lado e CIV mais próxima da pulmonar, depois de bandagem.

7. O teste do tubo de 13 mm

Para ter dois ventrículos, o sangue do VE precisa chegar à aorta. Desenhei dentro do VD o caminho mais curto da CIV até a valva aórtica, afastado das paredes, e o transformei num tubo de 13 mm, a largura da raiz aórtica junto à valva.

Teste Resultado
Comprimento da linha central 30,3 mm
Voxels do tubo dentro da pulmonar 0
Voxels do tubo fora do sangue 55 (0,4%)
Fração do VD ocupada 11%
Saída VD→pulmonar, maior esfera que passa 11,5 mm com o tubo, 11,5 mm sem ele
Menor distância do trajeto à valva pulmonar / à tricúspide 12,5 / 10,6 mm

O tubo cabe. Não atravessa parede, não entra na pulmonar e não estreita a saída do VD. No filme, o contador da pulmonar fica em zero enquanto o tubo cresce, e esse número sai da mesma máscara que gera o tubo na tela.

Tubo de 13 mm da CIV até a aorta dentro do ventrículo direito: 30 mm e 0 voxel dentro da pulmonar

8. Duas rotas para dois ventrículos

Caber não é o mesmo que ser a melhor cirurgia. Quando a CIV está perto da pulmonar, existe outra rota: fechar a CIV para a pulmonar e trocar as artérias de lugar, com a cirurgia de Jatene. Masuda e colaboradores operaram assim 27 pacientes com DVSVD e CIV subpulmonar quando o túnel intraventricular não era viável. Houve um óbito operatório. Nos pacientes com artérias lado a lado, a coronária esquerda passava atrás da pulmonar em 10 de 12, e 9 dos 27 tinham anomalia do arco [4].

No outro extremo, na CIV não relacionada, Li e colaboradores compararam 40 pacientes com o túnel até a aorta e 35 com o túnel até a pulmonar mais a troca arterial. As obstruções do túnel apareceram só no primeiro grupo: 10 contra 0 [5]. O caso deste artigo não é desse tipo, mas o dado mostra por que um túnel longo até a aorta preocupa o cirurgião.

Na série de Tchervenkov, 24 lactentes com DVSVD foram corrigidos com quatro técnicas diferentes, escolhidas caso a caso [6]. Esse é o padrão da doença: a rota é individual.

Duas rotas na dupla via de saída do ventrículo direito: tubo da CIV até a aorta e tubo da CIV até a pulmonar com troca arterial em esquema

9. O que a imagem não mostra

Pelos dados desta ressonância, a resposta é dois ventrículos: câmaras e valvas de entrada equilibradas, uma CIV do tamanho da valva aórtica (razão de área 0,87) e espaço para um tubo sem fechar a saída do VD. A escolha da rota depende do que esta imagem não mostra:

  • O cone e o septo infundibular: o músculo da saída decide se o túnel fica livre ou obstruído.
  • As cordas da tricúspide: podem atravessar o caminho do túnel.
  • As coronárias: decidem o risco da troca arterial.
  • O gradiente da bandagem e a resistência vascular pulmonar: fisiologia, não anatomia.

Quem decide é o time: cardiologista, cirurgião e intensivista, com eco, cateterismo quando indicado e a criança na frente.

10. Na UTI, depois de cada rota

Esta seção é a conduta que eu levo para o plantão, não um dado do estudo.

  • Depois da bandagem: a saturação e o eco dizem se a faixa está apertada demais (cianose) ou frouxa (hiperfluxo pulmonar). A bandagem compra tempo, mas não corrige.
  • Depois do túnel até a aorta: procurar obstrução da via de saída do VE e CIV residual. Um túnel longo tem mais motivo para obstruir [5].
  • Depois da troca arterial: isquemia coronária vem primeiro. Olhar o ECG seriado, o lactato e a função ventricular nas primeiras horas, e saber de antemão a anatomia coronária descrita na cirurgia [4].
  • Nas duas: arritmias pós-operatórias e bloqueio AV, porque a sutura passa perto do sistema de condução.

11. Como foi feito e o que deu errado

Usei a segmentação feita à mão da base HVSMR-2.0 [2] e escrevi scripts que medem contatos, distâncias e trajetos. O filme sai de um motor 3D próprio, e cada número na tela vem da mesma conta que move a imagem.

  • Erro 1, o maior: chamei a CIV de remota medindo de centro a centro (24,6 mm). De borda a borda deu 11,9 mm. O caso continuou bom; o rótulo estava errado. Por isso o vídeo não diz “remota”.
  • Erro 2: medi a bandagem em faixas de 3 mm ao longo do tronco e obtive 7,0 mm. Em faixas de 1 mm, que localizam melhor o ponto mais estreito, deu 5,9 mm. Ficou o segundo valor, com o método escrito.
  • Erro 3: no inglês, a voz sintética repetiu “or one” fora do roteiro. Cortei a repetição; o resto da fala ficou intacto, em velocidade normal.
  • Revisão: fiz uma revisão crítica no papel de um ecocardiografista sênior, simulada com IA. Ela trocou “anel” por “raiz junto à valva”, tirou “CIV não restritiva” e “perimembranosa” e transformou a linha do túnel no tubo de 13 mm. Ainda não é a revisão de um cardiologista de carne e osso.

12. O método em 59 corações

Antes de confiar no método, testei-o na base inteira. Escrevi as regras antes de ver os resultados e não as ajustei depois. Comparei o diagnóstico derivado automaticamente da segmentação com o diagnóstico registrado em cada caso.

Critério Sensibilidade Especificidade
CIV 0,97 0,77
DVSVD 0,82 0,86
Ventrículo único 1,00 0,96
Bandagem da pulmonar 0,83 1,00
Fontan 0,89 1,00
Veia cava superior bilateral 1,00 1,00
Dextrocardia 0,90 1,00
CIA ou átrio comum 0,62 0,63
Transposição não operada 0,40 1,00
Anastomose aorta-pulmonar 0,00 0,89
Total (59 casos × 12 critérios) 636 de 708 decisões batem (89,8%); acurácia balanceada média de 82%

Os erros têm padrão. O método falha onde a parede é mais fina que o pixel: o septo atrial e os vasos que encostam um no outro viram falsas comunicações. Também falha na atresia pulmonar, em que transposição e DVSVD ficam indistinguíveis sem a conexão da pulmonar. O pat48 está do lado confiável: a CIV tem 269 mm² de contato, acima de qualquer falso positivo comparável, e as duas artérias saem do VD com conexões amplas.

Validação do método em 59 corações reais: 636 de 708 decisões concordantes com o diagnóstico registrado

13. O que é real e o que é calculado

Limites

Real: a anatomia do pat48, a segmentação dos autores da base e o corte de ressonância. Calculado: distâncias, volumes, o tubo e a validação, por scripts próprios sobre a segmentação. Esquema: a troca das artérias no filme e as partículas da via de saída. Ilustrativo: a história clínica, a reunião e a idade descrita. O método roda sobre a segmentação feita por especialistas, não sobre a imagem crua, e não substitui o eco nem o especialista. Material educacional, sem uso diagnóstico.

14. Perguntas frequentes

Esta é uma CIV não relacionada?

Não. Medida de borda a borda, ela fica a 11,9 mm da aorta e a 6,3 mm da pulmonar. O critério de não relacionada exige mais de um diâmetro aórtico das duas valvas [3].

Então é um Taussig-Bing?

O padrão aponta para o espectro tipo transposição, mas confirmar o nome exige ver o cone, que não está segmentado. O artigo não usa o rótulo.

Se o tubo cabe, por que não operar assim?

Porque caber é geometria. A escolha depende do músculo da saída, das cordas e das coronárias, que esta imagem não mostra, e da experiência do serviço [4–6].

A IA fez o diagnóstico?

Não. A segmentação é manual, feita pelos autores da base. Os scripts medem o que a segmentação mostra e foram testados nos 59 casos, com os erros expostos.

Quer ensinar anatomia assim?

A Metodologia AIMED organiza o uso de IA em medicina, com revisão clínica em cada etapa.

Conheça o AIMED →

15. Considerações Finais

A pergunta “dois ventrículos ou um?” costuma ser respondida no eco e na reunião. Aqui, a ressonância pública de um lactente respondeu metade dela: há dois ventrículos equilibrados e espaço para o túnel. A outra metade, que é o caminho, depende do que a imagem não mostra.

💡 Connecting the Dots. O erro de medir do centro, e não da borda, transformou uma CIV comum em “remota”. É o mesmo erro que se comete à beira do leito quando se descreve a CIV pelo que parece no 3D, e não pelo que a definição mede. O método não é perfeito, mas mostra até onde dá para chegar com dados abertos, contas que qualquer colega pode repetir e erros escritos.

Leia também o episódio anterior, Transposição corrigida em 3D, com o mesmo método aplicado a outra cardiopatia.

Este coração só pôde ser estudado porque o exame de alguém está em uma base pública.

Referências

  1. Walters HL, Mavroudis C, Tchervenkov CI, Jacobs JP, Lacour-Gayet F, Jacobs ML. Congenital Heart Surgery Nomenclature and Database Project: double outlet right ventricle. Ann Thorac Surg. 2000;69(4 Suppl):S249-63. PMID: 10798433. DOI: 10.1016/s0003-4975(99)01247-3
  2. Pace DF, Contreras HTM, Romanowicz J, et al. HVSMR-2.0: A 3D cardiovascular MR dataset for whole-heart segmentation in congenital heart disease. Sci Data. 2024;11:721. PMID: 38956063. DOI: 10.1038/s41597-024-03469-9
  3. Lacour-Gayet F. Biventricular repair of double outlet right ventricle with noncommitted ventricular septal defect. Semin Thorac Cardiovasc Surg Pediatr Card Surg Annu. 2002;5:163-72. PMID: 11994877. DOI: 10.1053/pcsu.2002.31491
  4. Masuda M, Kado H, Shiokawa Y, et al. Clinical results of arterial switch operation for double-outlet right ventricle with subpulmonary VSD. Eur J Cardiothorac Surg. 1999;15(3):283-8. PMID: 10333024. DOI: 10.1016/s1010-7940(99)00002-0
  5. Li S, Ma K, Hu S, et al. Biventricular repair for double outlet right ventricle with non-committed ventricular septal defect. Eur J Cardiothorac Surg. 2015;48(4):580-7. PMID: 25612745. DOI: 10.1093/ejcts/ezu523
  6. Tchervenkov CI, Marelli D, Béland MJ, et al. Institutional experience with a protocol of early primary repair of double-outlet right ventricle. Ann Thorac Surg. 1995;60(6 Suppl):S610-3. PMID: 8604947. DOI: 10.1016/0003-4975(95)00855-1

Música do filme: ‘In This Moment’ by Scott Buckley – released under CC-BY 4.0. www.scottbuckley.com.au

◆ Novidades

  1. Transposição corrigida em 3D: duas trocas que se anulam e o ventrículo que paga a contaNOVO
  2. Anatomia do olho em 3D: faça o teste do olhinho em um olho realNOVO
  3. Anatomia da cabeça em 3D: rosto, crânio e cérebro de uma só pessoa
Ver todos os 54 artigos